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Por favor, apague a luz, artigo de Alessandro Barghini
31/03/2009

“Diante dos sérios problemas de contaminação do ar, solos e águas, parece fútil falar de poluição luminosa. Contudo, para os biólogos, a poluição luminosa é um problema particularmente grave”

Alessandro Barghini é consultor internacional em planejamento energético, doutor em Ecologia pelo IB/USP, pesquisador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, IB/USP.

Das 20h30 às 21h30 de sábado, 28 de março, as luzes permaneceram apagadas durante uma hora, pelo mundo afora. A manifestação começou na Nova Zelândia e passou por Sydney, Pequim, Tókio, Bangkok, Nova Delhi, Mumbai, Budapeste, Roma, Paris e Madrid, terminando nas Américas, como parte do projeto Hora do Planeta, do WWF (Fundo Mundial para a Natureza).

Participaram do evento Rio de Janeiro, Nova York, Las Vegas, São Francisco e mais de 1000 outras cidades, e calcula-se o engajamento de um bilhão de pessoas. O objetivo do WWF foi o de sensibilizar a opinião pública, para a necessidade de se reduzir o consumo de energia, portanto o impacto de seu desperdício sobre o meio ambiente.

Foi uma iniciativa nobre, como todas as outras voltadas para reduzir o impacto das ações humanas sobre o ambiente natural, mas não é suficiente, pois não toca na urgente necessidade de se reduzir a poluição luminosa.

Diante dos sérios problemas de contaminação do ar, solos e águas, parece fútil falar de poluição luminosa.

Contudo, para os biólogos, a poluição luminosa é um problema particularmente grave. De fato, sendo algo novo na história da terra, os organismos vivos, que evoluíram nos últimos 3,5 bilhões de anos, estão programados geneticamente para alternâncias de períodos de claridade e obscuridade, para as quais desenvolveram suas estratégias de sobrevivência.

Sendo gerada por sistemas com espectro de luz diferente do da radiação solar, a iluminação artificial exerce efeitos perversos sobre o ambiente, alguns dos quais têm sido evidenciados em estudos conduzidos no exterior e no Brasil.

Foi comprovado que a iluminação noturna afeta as tartarugas marinhas, as aves migratórias, pequenos mamíferos e os sapos, reduzindo sua capacidade de reprodução. A vegetação também é afetada.

O impacto mais deletério da iluminação artificial é sobre os insetos. Atraídos de até 500 metros pela iluminação, os insetos continuam circulando em volta das luminárias, batendo às vezes nas lâmpadas e morrendo ou reduzindo sua capacidade de reprodução.

Para a maioria das pessoas o sacrifício dos insetos é irrelevante. Entretanto a atração dos insetos pela iluminação artificial pode gerar imprevisíveis efeitos, em longo prazo. A extinção de um polinizador, por exemplo, pode levar à perda de uma espécie vegetal.

Ainda mais grave é o efeito da atração de insetos transmissores de graves doenças para áreas habitadas pelo homem, fato especialmente inquietante num país tropical, como o Brasil, com uma grande diversidade de vírus transmissíveis pelos insetos.

Em 2005 ficou confirmado que a iluminação artificial está produzindo um novo padrão de difusão do mal de Chagas e, só em Santa Catarina, foram registrados 12 casos deste mal em consumidores de caldo de cana, provavelmente contaminado por insetos atraídos pela iluminação de uma tenda de venda de garapa.

A iluminação artificial inadequada pode também facilitar a difusão da leishmaniose na periferia das cidades e há indícios de que o mesmo acontece em relação a outras doenças.

O homem não é imune aos efeitos da iluminação artificial em excesso, que rompe os ciclos circadianos e pode induzir distúrbios comportamentais como hiperexcitação, além, possivelmente, da difusão de câncer de mama em mulheres em menopausa.

Apesar de tudo isso, as autoridades, talvez por falta de informação, pouco fazem a respeito. Naturalmente, são inegáveis os benefícios da iluminação artificial, no tocante à segurança pública e à extensão dos turnos de trabalho e das horas de lazer.

Vamos, então, refletir sobre os problemas casados pela iluminação artificial sobre o ambiente natural e sobre como seria fácil reduzi-los: existem filtros de radiação ultravioleta para as luminárias, que constituem os principais focos de atração de insetos. É possível que, após essa reflexão, percebamos que os programas oficiais de universalização do atendimento elétrico devam ser reformulados, para levar em conta a preocupação com tais impactos, sobretudo em regiões arborizadas.

As populações, especialmente em regiões isoladas, devem ser informadas sobre os perigos da iluminação descontrolada, muito atrativa para os insetos

 

Mais informações sobre este assunto em:

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41134/tde-13062008-100639/

 

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